Um misto de nostalgia e necessidade de pacificar o vestiário marca os primeiros dias do técnico português em Madri. As novas regras (do horário rígido à alimentação, passando pelo fim das sessões de fisioterapia longe dos olhos da comissão técnica) movimentam o elenco merengue. Courtois, inclusive, elogiou publicamente o novo ambiente.
Quando a bola começar a rolar (e o Madrid estreia oficialmente na temporada neste sábado (22), contra o Espanyol, na Catalunha, às 16h30 (horário de Brasília), pela segunda rodada de LaLiga), começará a ser respondida uma pergunta inevitável: até que ponto o velho e bom Mourinho, o Special One, como ficou conhecido, realmente voltou?

Sem dúvida, ele está no hall dos maiores treinadores do futebol mundial das últimas duas décadas. Mas, em 2010, quando chegou ao Real para sua primeira passagem, Mourinho estava no auge da carreira. Havia acabado de colocar o título da Champions League nas mãos dos torcedores da Inter de Milão. Assim como agora, na Espanha, o Real estava atrás do Barcelona. E, em nível europeu, não ganhava o título mais cobiçado do continente havia quase uma década.
Com Mourinho, os madrilenos venceram La Liga em 2011/12, com 100 pontos e 121 gols, além de um saldo de 89. Na Champions, foram três semifinais consecutivas, embora nenhum título. As coisas, de fato, desandaram na temporada 2012/13. Mourinho entrou em rota de colisão com nomes importantes do elenco, entre eles Iker Casillas e Sergio Ramos, e deixou o cargo ao fim da temporada.
“Estou aqui para ajudar todos a se tornarem melhores: jogadores, comissão técnica... criar uma cultura de trabalho, responsabilidade, ambição e algo que conheço bem: a responsabilidade e a honra de trabalhar para o Real Madrid. Não se trata de trabalhar no Real Madrid; trata-se de trabalhar para o Real Madrid. E é com esse espírito de missão que estou aqui”, afirmou Mourinho ao retornar ao clube, em 2026.

Desde que deixou o Real Madrid, em 2013, José Mourinho percorreu um caminho marcado por títulos importantes, passagens turbulentas e uma mudança gradual em seu lugar na elite do futebol europeu. A curva passou a ter altos e baixos, estes, principalmente nos últimos anos.
Após três temporadas em Madri, o português retornou ao Chelsea, clube onde havia construído parte decisiva de sua reputação. Na segunda passagem pelos Blues, conquistou a Premier League de 2014/15, seu último título nacional de liga até hoje. A temporada seguinte, porém, foi marcada por uma forte queda de rendimento, e Mourinho deixou o clube em dezembro de 2015.
Em 2016, assumiu o Manchester United com a missão de recolocar o clube entre os protagonistas do futebol inglês e europeu. Em sua primeira temporada, conquistou a Copa da Liga Inglesa e a Liga Europa, garantindo ao United uma vaga na Liga dos Campeões. O trabalho, no entanto, terminou em dezembro de 2018, em meio a resultados irregulares e a um ambiente cada vez mais desgastado.

A passagem seguinte foi pelo Tottenham. Mourinho chegou em novembro de 2019 e levou o time à final da Copa da Liga Inglesa, mas acabou demitido em abril de 2021, poucos dias antes da decisão. Foi sua última experiência na Premier League e reforçou uma tendência que passou a acompanhar sua carreira: trabalhos mais curtos e relações que, em alguns casos, se deterioravam antes que seus projetos alcançassem maior estabilidade.
Em 2021, Mourinho assumiu a Roma e reencontrou parte de sua capacidade de construir uma relação forte com um clube e sua torcida. Logo em sua primeira temporada, conduziu a equipe ao título da Conference League, em 2022, o primeiro troféu europeu da história do clube. No ano seguinte, levou os italianos à final da Liga Europa, perdida para o Sevilla nos pênaltis. Apesar desses resultados, deixou a Roma em janeiro de 2024, antes do fim de sua terceira temporada.
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Depois da Itália, Mourinho aceitou o desafio do Fenerbahçe, na Turquia, em 2024. A passagem durou pouco mais de uma temporada e não resultou em títulos. Em setembro de 2025, retornou ao Benfica, clube onde havia iniciado sua trajetória como treinador principal. A segunda passagem, porém, também foi breve. Em junho de 2026, o Real Madrid anunciou oficialmente seu retorno, com contrato até 2029.
Assim, desde a saída do Real Madrid, a carreira de Mourinho combinou momentos de sucesso (como a Premier League pelo Chelsea, a Liga Europa pelo Manchester United e a Conference League pela Roma) com uma perda de continuidade nos grandes projetos.
O retorno de Mourinho o recoloca em um cenário que ele conhece bem, mas também diante de uma questão que acompanha sua trajetória nos últimos anos: até que ponto seus métodos rígidos e seu estilo, em alguns momentos mais engessado, ainda podem fazer diferença em um futebol cada vez mais fluido, no qual estratégias detalhadas, flexibilidade tática e capacidade de adaptação ganham jogos e campeonatos?
