Nova craque do Fla é filha de santista, gêmea de jovem do Bayern e meia de Portugal

Yasmim Cardozo tem uma relação muito especial com o futebol
Yasmim Cardozo tem uma relação muito especial com o futebolProfimedia

Tailândia, Brasil e Portugal se cruzam na história de Yasmim Cardozo. Aos 17 anos, a jovem jogadora do Flamengo já viveu uma realidade pouco comum no futebol feminino: cresceu na Ásia, representou o Brasil, chegou à seleção portuguesa e construiu o sonho de ser jogadora ao lado de uma família totalmente ligada ao esporte. Filha de um campeão brasileiro e irmã gêmea de Maycon, recentemente campeão pelo Bayern Munique, Yasmim quer se afirmar com o próprio nome.

Nascida no Brasil, criada na Tailândia e agora jogadora da seleção de Portugal, Yasmim Cardozo carrega uma história diferente de quase tudo aquilo que é habitual no futebol feminino. Aos 17 anos, a jovem do Flamengo junta influências culturais distintas, uma personalidade forte e um percurso moldado desde cedo pelo futebol e pela família.

Filha de Douglas Cardozo, campeão brasileiro pelo Santos em 2002, e irmã gêmea de Maycon, jovem meia do Bayern, Yasmim cresceu num ambiente onde a disciplina, a competitividade e a ambição sempre fizeram parte da rotina. Na Tailândia, país onde passou praticamente toda a infância, tornou-se presença habitual em programas televisivos, destacou-se entre garotos nos torneios escolares e chegou mesmo a ajudar a mudar "regras" na escola para permitir a participação de meninas na equipe de futsal.

Yasmim começou a jogar na Tailândia
Yasmim começou a jogar na TailândiaArquivo Pessoal

Ao lado da família, construiu também uma forte ligação com o futebol através de um canal de YouTube onde os Cardozo compartilhavam treinos, desafios e momentos do dia a dia. Hoje, vista por muitos como uma das jovens promessas mais interessantes da sua geração, Yasmim continua escrevendo uma história que mistura Brasil, Tailândia, Portugal e o sonho de chegar ao topo do futebol mundial.

Nesta entrevista ao Flashscore, acompanhada também pelo pai, Yasmim revisita o percurso até aqui, fala da experiência na seleção portuguesa, da ligação especial com o irmão Maycon e dos sonhos que alimenta para o futuro.

O início na Tailândia: "Foi lá que descobri a minha paixão pelo futebol"

Você nasceu no Brasil, cresceu na Tailândia e tem também uma ligação a Portugal pela família do seu pai. Como isso tudo te moldou dentro e fora de campo?

Yasmim: Sou muito grata à Tailândia, porque foi lá que cresci e descobri a minha paixão pelo futebol. O meu pai jogava lá e eu estava sempre nos campos. Isso fez com que começasse a ter vontade de jogar também. Aos oito anos, decidi que queria ser jogadora. O meu pai me ajudou muito nesse caminho. Por ter aquela ginga brasileira, ele sempre esteve ali me apoiando e também me incentivando dentro de campo.

Yasmim cresceu na Tailândia
Yasmim cresceu na TailândiaArquivo Pessoal

Como foi crescer na Tailândia?

Yasmim: Foi muito bom. A cultura é completamente diferente da brasileira e também da portuguesa. Estudei numa escola tailandesa e o meu pai quis sempre que eu convivesse com os tailandeses desde pequena. Cresci com eles. A comida, a língua, os costumes… tudo era muito diferente. Mas foi uma oportunidade incrível. Ainda hoje, aqui no Brasil, no clube, me chamam de "tailandesa" e eu acho isso muito engraçado.

Vocês falam tailandês?

Yasmim: Sim, falamos e também escrevemos...

Douglas: Eles (Yasmim e Maycon) foram alfabetizados em tailandês e em inglês. Isso ajudou muito no crescimento dela. Como lá praticamente não havia futebol feminino, a Yasmim jogava sempre com os meninos. Isso a tornou muito competitiva e a ajudou a ganhar personalidade dentro de campo. Ela nunca teve medo de enfrentá-los. Criou ali uma casca, uma força mental importante para o futebol. E, quando foi para o futebol feminino aos 15 anos, conseguiu destacar-se.

Para quem ainda não a conhece, como é a Yasmim, dentro e fora de campo?

Yasmim: Sou uma menina alegre, muito determinada, que tenta dar sempre o melhor de si. Sinto-me abençoada. Deus ajudou-me muito ao longo da minha vida.

Yasmim divide muitos sonhos no futebol com o irmão Maycon
Yasmim divide muitos sonhos no futebol com o irmão MayconArquivo Pessoal

A relação com o irmão Maycon: "Ele é um guerreiro"

Entre bolas, desafios e uma competitividade constante dentro de casa, Yasmim e Maycon construíram uma relação muito próxima, marcada pela companhia e pela ambição de se profissionalizar no futebol.

Yasmim não esconde o orgulho no percurso do irmão e recorda os sacrifícios que Maycon fez desde muito novo para perseguir o sonho de ser jogador. Ao mesmo tempo, fala da importância da família no seu crescimento, numa casa onde o futebol sempre esteve presente e onde nunca faltou apoio, união e disciplina.

O futebol esteve sempre presente na sua vida desde muito cedo?

Yasmim: Sempre! Eu posso até dar um exemplo. Na escola havia uma espécie de Olimpíadas entre turmas e só os rapazes podiam jogar futsal. Eu fui falar com o professor e perguntei: "Como assim só os rapazes podem jogar?" Depois disso passaram a incluir também as meninas.

Douglas: Ela mudou as regras na escola!

Yasmim Cardozo na infância
Yasmim Cardozo na infânciaReprodução/Instagram

Acredito que essa paixão era compartilhada com o irmão Maycon. Como descreve a relação de vocês?

Yasmim: Somos gêmeos e sempre fomos muito competitivos. O meu irmão começou a jogar antes de mim e eu nunca quis sentir que, por ser menina, seria pior do que ele. Tentava sempre competir na velocidade e na força. Ele é muito bom, mas isso me fez evoluir bastante. As brigas entre irmãos são reais (risos). Eu e o meu irmão sempre estivemos juntos para tudo. Ele me ajudou muito em todos os momentos e a minha família sempre foi muito unida. É o meu lugar mais seguro. A minha mãe, para dizer a verdade, nem gosta muito de futebol (risos), mas sempre filmou os nossos lances e acompanhou tudo. É uma guerreira e nos ajudou sempre em tudo.

Como olha para a trajetória dele?

Yasmim: O meu irmão saiu de casa muito cedo, com 10 ou 11 anos, para ir viver para Bangkok, e sempre foi uma inspiração para mim. Eu sempre fui mais filhinha do papai, nunca estive muito tempo longe da minha família, e ele passou por isso desde muito novo. Teve momentos difíceis, porque era muito jovem para estar longe de casa, e lembro-me de o ver muitas vezes com saudades, até chorando. Hoje olho para ele e penso: que guerreiro! Está vivendo sozinho na Alemanha e seguindo o sonho dele. Fico muito feliz por poder dizer que sou irmã do Maycon, que joga no Bayern. Ainda vai conquistar muitas coisas no futebol.

E o que diz ele em relação a si?

Yasmim: Ele deve estar orgulhoso!

E quem é melhor?

Yasmim: Somos diferentes. Pai, você responde… (risos)

Douglas: O Maycon talvez tenha um talento mais natural, mas a Yasmim é extremamente competitiva, disciplinada e profissional. Sempre tentei passar uma mentalidade europeia: olhar para o futebol como uma profissão séria. Me lembro de um dia perguntar à Yasmim porque não tentava ser modelo. Ela começou a chorar e respondeu: “Pai, eu quero ser jogadora de futebol.” A partir daí assumi também esse papel de treinador. Hoje estamos vendo o fruto dessa dedicação.

Como foi crescer com um pai ex-jogador profissional?

Yasmim: O meu pai sempre foi muito importante. Não era só pai, era também treinador. Desde pequena analisava os meus jogos comigo, me mostrava os erros e me ajudava a melhorar. É muito bom ter alguém dentro de casa para ajudar nesse processo. Claro que não foi sempre fácil. Houve muitas coisas de que abdiquei. Às vezes não podia ir a festas ou comer certas coisas porque havia jogo no dia seguinte.

Douglas: Sem McDonald’s (risos).

Yasmim: Sem McDonald’s, mesmo (risos). Hoje nem bebo refrigerantes. Mas tudo isso me ajudou a crescer enquanto atleta. Eu sou apaixonada pelo futebol.

Yasmim com a camisola de Portugal
Yasmim com a camisola de PortugalFPF

A chamada à seleção portuguesa: "Me senti em casa"

Depois de já ter representado a seleção brasileira de sub-17, com a última convocação em outubro de 2024, Yasmim voltou a viver um momento marcante na carreira em abril deste ano, quando viu o seu nome incluído na convocatória das sub-18 da... seleção portuguesa.

A jovem jogadora, que em 2025 foi apontada como uma das maiores promessas do futebol feminino da América Latina entre as atletas nascidas a partir de 1 de janeiro de 2006, explica ao Flashscore como nasceu a ligação a Portugal e de que forma viveu os primeiros momentos com a camisa do país. O pai, Douglas Cardozo, também detalha todo o processo que levou à chegada da jovem à seleção.

Como surgiu a possibilidade de representar Portugal?

Douglas: O contato começou há cerca de dois anos, através do senhor (Paulo) Tavares, scout ligado à Federação Portuguesa de Futebol (FPF). A Yasmim começou a se destacar no futebol tailandês, foi jogar um torneio em Singapura e surgiu também o interesse do Paris Saint-Germain, mas acabamos tendo alguns problemas relacionados com a documentação. Mais tarde estivemos em Portugal, em contato com o Sporting, enquanto tentávamos resolver essas questões. Acabou não acontecendo, voltamos ao Brasil e ela assinou pelo Flamengo. Mesmo com todas essas dificuldades, que deixaram a Yasmim sem competir durante cerca de um ano e meio, o senhor Tavares manteve contato conosco e acompanhou de perto a evolução dela. Quando surgiu a oportunidade da convocação para Portugal, ficamos todos muito felizes. A minha família tem raízes portuguesas e todos receberam a notícia com muito orgulho.

Yasmim feliz com experiência na seleção portuguesa
Yasmim feliz com experiência na seleção portuguesaOpta by Stats Perform, FPF

Yasmim: É isso mesmo, fiquei muito feliz! Representar a seleção é das melhores coisas que pode acontecer a uma jogadora. Percebi também que Portugal é um ótimo país para viver e senti que fui muito bem acolhida pelas pessoas e pelas colegas na seleção. A ligação foi muito boa e espero que continue assim.

Douglas: Foi uma grande honra, sobretudo para a minha mãe e também para mim. Amo o Brasil, é a minha pátria, mas também tenho sangue português. E, olhando para a evolução do futebol português nos últimos anos, isso me deixou muito feliz. Esta possibilidade já batia forte no meu coração há algum tempo e esperamos poder construir uma bonita história junto da seleção portuguesa.

Yasmim: Quando fui à seleção me senti em casa. As jogadoras me acolheram muito bem e gostei muito da forma como Portugal joga. Há muita qualidade técnica e uma grande preocupação em jogar com bola. O senhor Tavares manteve sempre o contato com a gente e, por outro lado, a seleção brasileira deixou de acompanhar tão de perto a minha situação. Portugal continuou sempre presente e eu aceitei essa oportunidade com todo o prazer.

O que mais a surpreendeu nas jogadoras portuguesas?

Yasmim: Há jovens muito fortes tecnicamente e criativas. A Matilde (Matos), por exemplo, me impressionou bastante. Gostei muito do nível delas.

Yasmim à serviço do Flamengo
Yasmim à serviço do FlamengoClube de Regatas do Flamengo

O presente no Flamengo: "Futebol brasileiro está evoluindo muito"

Depois de problemas burocráticos terem impedido a continuidade no Paris Saint-Germain e de uma breve passagem por Portugal, onde treinou com o Sporting, Yasmim encontrou no Flamengo a oportunidade ideal para voltar a competir e recuperar a alegria dentro de campo. Aos 17 anos, a jovem vive a primeira experiência longe da família e garante estar feliz com a adaptação ao Rio de Janeiro e à exigência do futebol brasileiro.

Apesar da juventude, Yasmim demonstra já uma visão muito clara sobre aquilo que quer construir no futebol. Sonha jogar na Europa, conquistar títulos e deixar um legado no desporto, sempre inspirada por uma das maiores referências da sua vida: Cristiano Ronaldo.

Como está sendo a experiência no Flamengo?

Yasmim: É a minha primeira vez vivendo no Rio de Janeiro. Está sendo uma experiência tranquila, com uma vibe muito boa. Há praia, sol e temos uma equipe muito competitiva.

O que foi mais difícil?

Yasmim: O mais difícil foi ficar longe dos meus pais. Mas, com o tempo, me adaptei bem às minhas companheiras e à equipe. No início também foi complicado recuperar os índices físicos, porque estive algum tempo sem jogar. Mas agora já está tudo normal.

Como olha para o nível competitivo do futebol feminino brasileiro?

Yasmim: O Flamengo é uma equipe muito raçuda. Acho que o futebol feminino brasileiro está evoluindo muito, até porque existem cada vez mais competições, o que faz com que as jogadoras evoluam também. Acredito que as jogadoras brasileiras são muito competitivas e determinadas.

Yasmim no Flamengo
Yasmim no FlamengoJulliana Nascimento / CRF

"Quero deixar o meu legado no futebol"

O que imagina para o futuro?

Yasmim: Tenho grandes sonhos. Quero jogar na Europa, continuar ligada às seleções e chegar ao mais alto nível possível. Sei que não é fácil e que a competitividade é enorme, mas vou trabalhar muito para isso.

Portugal pode ser uma possibilidade no futuro?

Yasmim: Claro. Ficaria muito feliz. Mas só Deus sabe o futuro...

Como gostaria de construir a carreira no futebol?

Yasmim: Gostaria de deixar um legado, que dissessem que fui uma jogadora muito determinada, que conquistou os seus sonhos e deixou um legado no futebol. Quero ganhar títulos, talvez um Mundial um dia… Esse é o meu sonho.

O que gostaria de dizer ao futebol?

Yasmim: Obrigado por entrar na minha vida e mudar a minha história. Me sinto privilegiada por poder fazer aquilo que mais amo.

Yasmim ao centro com a camisa 23
Yasmim ao centro com a camisa 23FPF

"Cristiano Ronaldo sempre foi a minha referência"

Quais são as suas referências?

Yasmim: Cristiano Ronaldo sempre foi a minha maior referência. Hoje em dia também gosto muito de ver jogadores como o Doku. No futebol feminino, a Marta e a Formiga também são inspirações enormes para mim.

E o pai Douglas? Também é referência?

Yasmim: Claro que sim (risos).

Douglas: Estou sem moral (risos).