“Tem que respeitar!”, exige o post no Instagram de uma emissora que transmite a Copa. “Aqui é Brasil!", brada o post seguinte.
Da mesma forma, a mesma emissora "noticia" que "Jornal americano não coloca Seleção entre favoritos da Copa”. E comemora quando "Site inglês elege camisa brasileira entre as mais bonitas".

De onde vem essa obsessão em mapear o que o “mundo” (Europa e os Estados Unidos) pensa a nosso respeito?
Será o brasileiro um eterno carente de validação externa? A resposta para esse enigma não é simples, mas a nossa formação histórica e as leis da psicologia social dão uma pista.
Do Vira-Latismo ao pentacampeonato
Na década de 1950, tentando traduzir o trauma da perda da Copa de 1950 no Maracanã, o cronista Nelson Rodrigues cunhou uma expressão que vive até hoje no imaginário verde-amarelo: o "Complexo de Vira-Lata".
"Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima", escreveu Rodrigues após o Maracanazo.
Historicamente, o Brasil foi estruturado sob uma lógica de colonização de exploração e forte dependência cultural. Durante séculos, nossa elite econômica e intelectual importou tudo do Hemisfério Norte: das leis à moda, da literatura aos conceitos de civilidade. Crescemos ouvindo o eco da promessa de sermos o "país do futuro" depois de ter o território pilhado por invasores.
O vício da nossa mídia em repercutir o olhar estrangeiro nada mais é do que o reflexo desse trauma de formação. E esse padrão – não por acaso – se repete em basicamente todos os países da América do Sul.

Quando o tenista peruano Ignacio Buse conquistou o ATP 500 de Hamburgo, em abril, ele virou heroi nacional. Foi capa de todos os grandes jornais do Peru por ter “colocado o Peru no topo do mundo” – mesmo que mais nenhum outro lugar do planeta tenha dado muita bola para a conquista. O Brasil não deu o mínimo reconhecimento para o feito peruano, mas quando João Fonseca venceu o ATP 500 de Basileia, até o presidente da república comemorou.
“Quando um personagem se destaca fora do país, a gente é visto através dele", explica a psicóloga Marisa Markunas, que trabalha com o Comitê Olímpico Brasileiro.
“A relação de paixão e desta representação mexe em aspectos emocionais". A psicóloga ainda conta por que a mídia repete um padrão muito claro em derrotas de atletas individuais, do tipo ”João Fonseca luta, mas perde…”.
O padrão revela que, inconscientemente, o interlocutor está dizendo: “Este aqui nos representa porque é um batalhador, mesmo perdendo”, explica Markunas.

Por que a crítica estrangeira nos enfurece?
A explicação científica para esse comportamento está na Teoria da Identidade Social, desenvolvida pelo psicólogo social polonês Henri Tajfel.
Tajfel demonstrou que a mente humana divide o mundo social em duas categorias essenciais: o endogrupo (o grupo ao qual pertencemos e com o qual nos identificamos) e o exogrupo (os "outros", aqueles que estão de fora). De acordo com a teoria, parte fundamental da nossa autoestima individual é derivada do status e do valor do nosso endogrupo — neste caso, a nossa nação.
Quando os brasileiros criticam o próprio país ou a Seleção, a dinâmica ocorre estritamente dentro do endogrupo. Funciona como uma briga de família: criticar o próprio irmão na mesa de jantar é aceitável porque compartilha-se da mesma vivência, das mesmas dores e do mesmo afeto.
No entanto, quando um analista europeu critica o Brasil, a psicologia do processo muda instantaneamente. Para o cérebro social, o comentário do estrangeiro não é lido como uma análise isenta, mas sim como uma ameaça direta ao status do nosso grupo. Ativa-se um mecanismo de defesa coletivo: a autocrítica é suspensa e o grupo se une contra o invasor – que, neste caso, ainda tem um histórico colonizador.
A percepção deixa de ser "eles estão apontando uma falha que nós temos" e passa a ser, basicamente, "eles estão sendo arrogantes e tentando nos rebaixar".
No futebol o bicho pega?
“Como a gente tem um histórico de sucesso no futebol, andar com a camisa da CBF ao redor do mundo tem uma visibilidade. Nós somos vistos. As instituições que estão ligadas ao futebol brasileiro, incluindo a mídia, carregam esta paixão e identificação e, portanto, esta necessidade de continuar correspondendo ao imaginário de sucesso”, analisou Markunas.
Markunas também sugere uma explicação para as críticas tão severas para com nossos jogadores da Seleção. “Se o atleta se coloca no lugar de ser um representante brasileiro no mundo, existe uma exigência para que ele represente bem. Talvez haja uma expectativa muito mais intensa, muito mais apaixonada e severa (do que em outros esportes). O que se projeta para estes atletas é o lugar de heroi”.
“Pensamos assim: se você se propôs a ser heroi, seja. Se o atleta ou a equipe não corresponde a essa fantasia, temos um momento de aniquilação: ou você é meu heroi, ou você é meu algoz”, acrescentou a psicóloga esportiva.

Essa gangorra entre o amor e o ódio também tem um componente compensatório.
Durante a maior parte do século XX e início do século XXI, o futebol foi o único território global onde o Brasil ocupou o topo incontestável do mundo. Não tínhamos o poder econômico dos Estados Unidos, a estabilidade social da Escandinávia ou a infraestrutura da Alemanha, mas tínhamos a bola. O futebol tornou-se a prova viva de que o "vira-lata" podia vencer os impérios e se vingar das ex-metrópoles.
Quando o exogrupo (a imprensa do norte global) nos critica – ou não nos elogia, parece que eles estão tentando nos empurrar de volta para a periferia da história.
E, além de tudo, claro, é um traço muito humano – que se exarceba na adolescência – de buscar validação do outro, ser visto, reconhecido.

Afinal, o brasileiro é carente de validação externa?
A resposta científica e histórica é um doloroso sim. Mas essa carência não é uma falha moral; é uma cicatriz cultural de um país que ainda tenta se olhar no espelho sem precisar de filtros estrangeiros.
Acontece com países da Ásia e da África. Acontece também, em outra medida, com Portugal e Espanha, que já partilharam o mundo em dois, e hoje não são mais o centro do globo. Quando as duas seleções se cruzaram no mata-mata da Copa de 2010, a manchete do maior jornal português era “Embate de Grandes Navegadores” – uma patética alusão ao domínio ibérico de 500 anos atrás.

Você não vai ver, no entanto, uma televisão alemã, inglesa ou norte-americana repercutindo o que um comentarista ou jornal do Brasil falou deles. Assim como, amigas a amigos, você não vai ver um jornal brasileiro reclamando da crítica da TV senegalesa ao futebol da Seleção.
Portanto, há uma boa notícia: ao entender estas dinâmicas de poder e a psicologia junguiana, a gente consegue parar de terceirizar a nossa avaliação para o “papai colonial”. E conseguimos nos livrar dessa praga em um passe de mágica, ganhando ou perdendo a próxima partida.

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