“Sempre dissemos que a nossa classificação para o Mundial é mais do que esportiva, é cultural, é musical, é tudo. Queremos mostrar o nosso país ao mundo.”
Veja como foi Espanha 0x0 Cabo Verde
Os cartões de visita cabo-verdianos agora podem trazer um subtítulo: Tubarões-Azuis, um cardume organizado.
Vozinha, o líder da resistência
O muro montado por Bubista — apelido derivado da forma como soa a pronúncia rápida de "Boa Vista", uma das principais ilhas de Cabo Verde, onde nasceu o treinador de 56 anos — contra a poderosa Espanha teve três pilares principais.
O primeiro deles foi o veterano goleiro Vozinha. Josimar Dias fez sete defesas e evitou sozinho 1,46 gol, segundo as estatísticas da partida. Toda a equipe, ao longo do jogo, cometeu apenas uma falta.

O nome do goleiro, que joga no Chaves, na segunda divisão de Portugal, é uma homenagem ao lateral-direito Josimar, destaque do Brasil na Copa de 1986. O apelido surgiu na infância, porque ele costumava correr para os braços da avó sempre que algo dava errado.
Aos 40 anos, tornou-se uma referência histórica da seleção cabo-verdiana por ter participado de todas as principais competições disputadas pelo país.
Somente aos 25 deixou Cabo Verde para assinar com o Progresso do Sambizanga, de Angola. A transferência marcou o início de uma carreira que se confundiu com a ascensão da seleção no cenário africano. Ele estava no elenco que conquistou a histórica classificação para a primeira Copa Africana de Nações do país, em 2013.
Confira as estatísticas de Espanha x Cabo Verde
Na estreia do Mundial, em Atlanta, Vozinha liderou uma linha defensiva que muitas vezes contou com seis jogadores posicionados próximos à entrada da área. O bloqueio dificultou a circulação da bola de uma Espanha pouco inspirada.
"Um desastre para começar", resumiu o jornal Marca, um dos principais diários esportivos espanhóis. Pelo meio, Rodri, Pedri e Oyarzabal pararam no muro. Pelos lados, Llorente, Cucurella, Ferran Torres e Gavi não conseguiram contornar a barreira africana.

O reserva que aproveitou a oportunidade
No miolo da defesa, a dupla formada por Diney Borges e Pico Lopes também foi decisiva para neutralizar as tentativas de infiltração da Fúria, que chegou com o status de favorita ao título.
Há quase uma década na seleção, o combativo Borges, de 31 anos, assumiu a titularidade durante as Eliminatórias após a lesão de Logan Costa. Contra a Espanha, registrou cinco desarmes e oito rebatidas. Depois de uma passagem bem-sucedida pelo futebol marroquino, atua desde 2023 nos Emirados Árabes Unidos.
A oportunidade surgiu por necessidade, mas o defensor transformou a ausência de Logan Costa em afirmação pessoal. Hoje, é uma das peças mais confiáveis do sistema defensivo de Bubista.

O irlandês que descobriu o convite de Cabo Verde pelas redes sociais
Mas uma das principais figuras da equipe é o camisa 4, Roberto "Pico" Lopes, de 33 anos. Filho de cabo-verdiano, o zagueiro nasceu e cresceu em Dublin, na Irlanda.
Em entrevista à CNN, em 2024, ele contou que o primeiro contato da federação cabo-verdiana aconteceu pelas redes sociais. Como a mensagem estava em português, demorou nove meses para traduzi-la e entender do que se tratava.
Há 10 anos atua pelo Shamrock Rovers, principal clube da Irlanda. Contra a Espanha, liderou a equipe com 11 rebatidas.

Pela esquerda, Sidny Cabral foi o jogador que mais venceu duelos individuais. Aos 23 anos, é uma das promessas da seleção e do futebol europeu.
Depois de atuar na quinta divisão alemã e passar por clubes da Suécia e da Holanda, o defensor nascido em Roterdã destacou-se no Estrela da Amadora, de Portugal, antes de ser contratado pelo Benfica em dezembro, com aval de José Mourinho.

Um empate para entrar na história
Por mais que o futebol seja construído por histórias muitas vezes efêmeras, Cabo Verde já escreveu um capítulo importante na Copa do Mundo da América do Norte.
Os cerca de 550 mil habitantes do arquipélago espalhado pelo Atlântico fizeram questão de celebrar o resultado. Na capital, Praia, houve manifestações nas ruas. Do outro lado, na Península Ibérica, os espanhóis, que na última Copa estrearam com uma goleada por 7 a 0 sobre a Costa Rica, demonstraram frustração.
Em 17 participações em Mundiais, a Espanha soma agora cinco vitórias em estreias (1934, 1950, 2002, 2006 e 2022), cinco empates (1982, 1990, 1994, 2018 e 2026) e seis derrotas (1962, 1966, 1978, 1986, 1998, 2010 e 2014).
Ao lado do Brasil, a Espanha é uma das duas campeãs mundiais que estrearam nesta Copa. Nenhuma delas venceu.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.
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