"Isso será recompensado. Nós receberemos isso de volta. É karma. O karma voltará a nosso favor. Vamos mudar essa história", disse Tuchel ao ser questionado sobre o retorno da Inglaterra ao estádio onde o famoso gol de Maradona — e sua espetacular arrancada individual, minutos depois — garantiram a vitória da Argentina por 2 a 1 nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986.
Aos 6 minutos do segundo tempo, Maradona domina a bola do lado esquerdo do campo de ataque. Carrega pelo meio, esquivando-se dos ingleses. Antes da meia-lua, abre para Valdano, à direita, na entrada da área.
O zagueiro inglês chega primeiro, mas tira a bola para trás. Maradona salta na altura da marca do pênalti para disputar a bola com o goleiro Peter Shilton. O craque argentino tenta a cabeçada, mas a bola bate em sua mão esquerda e morre no fundo do gol.
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"É claro que eu me lembro da Copa do Mundo do Maradona", disse Tuchel nesta semana. "Dos dois gols contra a Inglaterra — aquele em que ele driblou todo mundo e o outro, que hoje em dia jamais seria validado."

O treinador alemão da Inglaterra tem toda razão. Em tempos de VAR, a descarada mão na bola de Maradona não entraria para a história. Poucos entenderam, na hora, a reclamação dos ingleses. Os replays, a qualidade e a disponibilidade das imagens eram muito diferentes das atuais. Só quando as fotos dos fotógrafos surgiram nos jornais, no dia seguinte (não havia internet) ficou clara a jogada do argentino.
Se hoje o primeiro gol de Diego nem seria validado, o que Maradona fez três minutos depois, com toda a razão, entrou (e continuará sendo lembrado sempre) na história dos Mundiais.
Alguns metros antes da linha que divide o gramado, ele pisa na bola, gira e já deixa dois adversários para trás. Dispara pelo lado direito e atravessa todo o campo de ataque. Ainda se livra de três ingleses, incluindo o goleiro, e empurra, de mansinho, a bola para o gol, perto da pequena área. Histórico. Genial.
A Inglaterra diminuiria no fim da partida, mas, com a vitória por 2 a 1, a Argentina voltou a sonhar com o título. Depois passaria pela Bélgica na semifinal e conquistaria a Copa diante da Alemanha Ocidental.
A sombra que marcou uma Copa
"Tinha 13 anos quando a Alemanha jogou a final contra a Argentina", continua Tuchel. "Também me lembro de que havia algo suspenso no meio do Azteca, e a sombra nunca se movia. Parecia uma placa pendurada, e o sol estava tão a pino que a sombra permanecia sempre ao redor do círculo central."
A lembrança do atual técnico inglês é a mesma de toda criança que assistiu àquela Copa pela televisão. A tal sombra marcou as transmissões da Copa do Mundo de 1986. No centro do gramado, havia um desenho que lembrava um "sol" ou uma "aranha", dando a impressão, correta, de que havia um objeto suspenso sobre o campo.

A marca visual era produzida pela estrutura metálica do sistema de som do Azteca, conhecida como "La Araña" ("A Aranha"), instalada a cerca de 36 metros de altura sobre o círculo central.
O conjunto reunia dezenas de alto-falantes distribuídos em hastes radiais, cuja sombra era projetada sobre o gramado. Como muitos jogos eram disputados perto do meio-dia e o sol, na Cidade do México, permanecia quase a pino, a sombra se deslocava muito pouco durante os 90 minutos, tornando-se uma das imagens mais características da Copa de 1986.
O peso do karma
"Estou muito animado para esse jogo. É uma partida icônica, enfrentar o México no México. Mas sabemos que estaremos jogando contra o país inteiro, contra a energia de toda a nação, dentro do estádio deles."
Sobre o gol de mão de 40 anos atrás, Maradona, que passou muitos anos dizendo que era um gol "um pouco com a cabeça e um pouco com a mão de Deus", no fim da vida chegou a pedir desculpas pelo lance, admitindo a trapaça.

O jogo contra os ingleses, naquela época, foi além da questão esportiva para os sul-americanos. Aquela Copa no México foi a primeira após o fim da ditadura argentina e ocorreu poucos anos depois da Guerra das Malvinas, entre ingleses e argentinos. Diego nunca se limitou a falar apenas sobre futebol.
Os tempos são outros e, agora, o duelo tem significados importantes para os dois lados apenas no aspecto esportivo. A Inglaterra, se vencer, além de despachar o karma, como diz Tuchel, entrará entre as oito melhores seleções do mundo pela terceira Copa seguida. Os donos da casa, se passarem, voltarão pela segunda vez na história a uma fase de quartas de final. A primeira foi exatamente há 40 anos, também em seu território.
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