Diário da Copa: Bem-vindo ao clube das ex-potências mundiais, Brasil!

Cafu, capitão do Penta, em frente a Copa do Mundo de Lego em Nova York
Cafu, capitão do Penta, em frente a Copa do Mundo de Lego em Nova YorkREUTERS/Janis Laizans

A imagem que abriu o funeral futebolístico do Brasil na tribuna de imprensa não foi o apito final, mas sim o movimento em massa que aconteceu logo após o segundo gol da Noruega, também anotado pelo algoz Haaland. Como num reflexo ensaiado pela frustração, a imprensa brasileira levantou-se em bloco e começou a deixar o local. Nas bancadas ao lado, o contraste: os correspondentes estrangeiros assistiam àquela debandada atônitos, empáticos com o drama vizinho, mas com os celulares em riste, registrando em vídeo o exato momento em que o gigante aceitava a derrota antes mesmo do relógio parar.

Muitos sequer viram o pênalti batido por Neymar e o gol que sequer diminuiu o tamanho da decepção.

Para a imprensa internacional, no entanto, o veredito já estava desenhado bem antes do apito inicial. A sensação nos corredores, desde antes de a bola rolar, era de que o Brasil há muito tempo deixou de ser o bicho-papão — e sofreria, como sofreu, em uma Copa onde seria coadjuvante. A eliminação, portanto, não foi um choque térmico; foi a crônica de uma tragédia anunciada.

Neymar liderou geração de perdedores
Neymar liderou geração de perdedoresReuters/James Lang

Ao descer para a sala de imprensa, ainda processando o peso de mais uma queda para um rival europeu — a sexta Copa consecutiva sem sequer sentir o cheiro da final —, cruzei com Boris Herrmann, um experiente jornalista alemão que viveu no Brasil e de quem me tornei amigo durante o torneio. Ele me recebeu com uma frase que grudou na minha mente:

"Bem-vindo ao clube das ex-potências mundiais."

A ironia carregava uma verdade dolorosa. Boris falava com a propriedade de quem vê a sua própria Alemanha naufragar em Copas desde o título de 2014, e de quem assistiu à Itália sumir do mapa do protagonismo. Agora, o Brasil carimbava o passaporte nesse mesmo grupo de gigantes que atualmente vivem de passado. Na visão dos analistas estrangeiros, a Seleção hoje é um time sem um rumo claro de transição para o futuro.

Adeus melancólico de um ídolo e o erro de cálculo

Após a partida, as críticas da imprensa internacional concentraram-se pesadamente sobre Neymar. Para os jornalistas do exterior, a convocação do camisa 10 foi um erro crasso de avaliação técnica e médica. Apontaram sua clara falta de ritmo, a perda da capacidade atlética e o fato de que ele já não conseguia mais entregar a intensidade que o futebol de altíssimo nível exige.

Assista aos melhores momentos de Brasil 1x2 Noruega

O consenso lá fora é implacável: Neymar encerrou sua trajetória em Copas do Mundo de forma apagada, melancólica, muito distante do protagonismo que seu talento um dia prometeu. Um desfecho triste para quem já foi a maior esperança do país.

Agora, os olhos do mundo se voltam não para o que será da Seleção, mas para o que Ancelotti conseguirá transformar este time. O entendimento geral é de que o sucesso até 2030 dependerá exclusivamente de quanta blindagem e liberdade haverá para reformular a base, oxigenar os conceitos e, finalmente, aceitar que o futebol brasileiro precisa de uma nova estratégia de transição técnica se quiser voltar a assustar alguém.

Torcedora lamenta derrota da Seleção em São Paulo
Torcedora lamenta derrota da Seleção em São PauloREUTERS/Tuane Fernandes

Os novos holofotes da zona mista

Se restava alguma dúvida de que o status do futebol brasileiro mudou no cenário global, a zona mista tratou de desenhar a nova realidade de forma cruel.

Quando os jogadores brasileiros passaram pelo corredor de entrevistas, apenas os microfones verde-e-amarelos se esticaram em busca de respostas para o fiasco. A imprensa internacional viu a frustração com curiosidade, mas sem o interesse — creio que já se acostumaram com as saídas e as mesmas desculpas. Os flashes, as câmeras e o empurra-empurra dos repórteres estrangeiros tinham um alvo: Erling Haaland.

Haaland brilhou mais que o Brasil em 2026
Haaland brilhou mais que o Brasil em 2026REUTERS/Dylan Martinez

Ver o atacante norueguês monopolizar a atenção do mundo no mesmo espaço onde a única seleção pentacampeã amargava seu funeral foi sintomático. O brilho da nova estrela europeia ofuscou por completo os holofotes do Brasil. O ápice desse contraste veio no meio da entrevista do norueguês, quando ele recebeu um abraço apertado de Vini Jr. — um gesto de carinho, mas que, naquele cenário, soou como uma simbólica e dolorosa forma de aceitar a rendição.

Ali, a maior promessa da nossa reconstrução reverenciava o dono do presente. Esta batalha foi perdida. E, enquanto a zona mista se esvaziava, o Brasil deixava o MetLife Stadium com uma pergunta ecoando no silêncio do seu isolamento: até quando mais será preciso perder para reaprender a vencer?

Ouvir aquilo dos nossos pares estrangeiros trouxe um sentimento devastador de impotência e incredulidade. Olhar para o lado e perceber que a imprensa internacional já não nos teme, mas nos analisa com uma frieza quase clínica — como quem estuda um espécime empacado no tempo —, dói mais do que a derrota em si.

Há uma clara percepção de que estamos assistindo, ao vivo, à perda da nossa identidade nacional através do futebol. Aquele jogo que costumava ser o espelho da nossa alma e da nossa criatividade está virando só mais um no tabuleiro global. E o pior sintoma disso é o silêncio que se instala: essa pasteurização do nosso futebol desmobiliza, pouco a pouco, a paixão cega que sempre nos moveu.

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