Diário da Copa: Nova York esquece futebol e vive o maior feriado do basquete em 53 anos

Jogadores arrastaram uma multidão pelas ruas de Nova York na maior parada da história da cidade
Jogadores arrastaram uma multidão pelas ruas de Nova York na maior parada da história da cidadeTIMOTHY A. CLARY / AFP

Daqui a poucas semanas, o mundo inteiro vai olhar para Nova York. O planeta do futebol vai prender a respiração para a final da Copa do Mundo, bem aqui, no quintal desta metrópole que julga já ter visto de tudo. Mas nesta quinta-feira (18), o mundo teve que esperar na fila. O futebol, com toda a sua grandiosidade, virou um mero figurante. Porque a cidade que nunca dorme acordou com o peito estufado, pintada de azul e laranja, para soltar um grito entalado na garganta há exatos 53 anos.

Muito antes do sol vencer os arranha-céus, Manhattan já cobrava o preço da sua obsessão. Às cinco da manhã, os túneis Lincoln e Holland já não eram caminhos, eram monumentos ao congestionamento. Quem vinha de Nova Jersey entendeu o recado: era hora de abandonar o metal dos carros e seguir a pé, no calor humano dos trilhos.

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As estações de trem viraram rios subterrâneos de uma mesma cor. Uma maré azul e laranja que inundava plataformas e desafiava os bloqueios do World Trade Center. Ninguém se importava em andar mais. Cada quarteirão caminhado era um rito de passagem para a história.

Torcedores tomaram semáforos, placas e andaimes para ver os campeões da NBA
Torcedores tomaram semáforos, placas e andaimes para ver os campeões da NBAJosias Pereira / Flashscore

Havia crianças equilibradas no topo de semáforos, nos ombros dos pais, operários dividindo andaimes com torcedores, anônimos escalando qualquer placa de sinalização apenas para ter o vislumbre, um segundo que fosse, dos novos deuses da quadra. O Canyon of Heroes estava entupido de gente horas antes da festa. 

Qualquer lugar servia para os fanáticos torcedores do Knicks
Qualquer lugar servia para os fanáticos torcedores do KnicksJosias Pereira / Flashscore

A segurança era rígida, blindada como o Réveillon na Times Square, mas faltava o medo e sobrava o afeto. Policiais não vigiavam; eles sorriam. Até as bandas dos bombeiros e dos parques desfilavam com a leveza de quem sabe que o dia hoje era sagrado.

Às dez da manhã, os céus de Manhattan nevaram papel picado. O que se viu na Broadway não foi uma parada esportiva, foi um carnaval de redenção. Quando um caminhão da polícia ousou tapar a visão da massa, a multidão não protestou com raiva, mas com o ritmo das ruas: “Move the truck! Move the truck!”. E quando o veículo cedeu ao apelo, o grito que ecoou foi no mesmo ritmo de um gol de Copa do Mundo

Parada dos Knicks, campeões da NBA, em Nova York
Josias Pereira

Nesta cidade acostumada a acolher os reis do mundo, de Cristiano Ronaldo a Lionel Messi, o verdadeiro dono da coroa atende pelo nome de Jalen Brunson. O MVP das finais não recebeu apenas a chave da cidade; recebeu uma devoção quase mística. Entre a chuva de papel picado, viam-se bandeiras da Jamaica tremulando em honra às suas raízes, e vassouras erguidas ao alto, celebrando as "varridas" de uma campanha irretocável. 

Entre os torcedores, a piada local já virou profecia: haverá uma geração inteira de pequenos "Jalens" correndo pelas calçadas do Brooklyn e do Bronx nos próximos anos.

Jalen Brunson, o rei de Nova York
Jalen Brunson, o rei de Nova YorkSTEPHANIE KEITH / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Mas a beleza da crônica não está nos números, está nos olhos de quem esperou. 

Está no rosto de torcedores comuns, como Michael Donahoe, que confessou ao Flashscore ter gastado a vida inteira aguardando por essa manhã. Está no sorriso de Jeremiah Freeney, que depois de décadas de angústia, finalmente encontrou paz na vitória.

Os reis de Nova York
Os reis de Nova YorkANGELINA KATSANIS / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

O que se viu no Canyon of Heroes foi um reencontro de gerações. Pais que gritavam de forma efusiva não pelo título em si, mas por poderem, finalmente, apresentar aos filhos um Knicks campeão. O fantasma de meio século de piadas e quase-vitórias evaporou no ar quente de junho.

Torcida dos Knicks invadiu as ruas de Nova York
Torcida dos Knicks invadiu as ruas de Nova YorkSTEPHANIE KEITH / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Por volta do meio-dia, os caminhões pararam e os confetes assentaram no chão. Mas ninguém arredou o pé. Nova York inteira decretou um feriado não oficial. Nas calçadas, nos bares, nos degraus de pedra das esquinas, o orgulho desfilava em uniformes gastos pelo tempo. Trabalhar numa quinta-feira dessas? Coisa de “loser”, diziam, entre risos

Os Estados Unidos podem até ser o centro do futebol neste ano, mas a alma de Nova York bate em outro ritmo. O coração da cidade tem dono, tem cor e tem história. 

Os Knicks são campeões. 

Nova York voltou a ser campeã.

E, por um dia, a cidade que nunca dorme parou para finalmente sonhar acordada. A espera acabou.

Prefeitura de Nova York recebeu os campeões da NBA
Prefeitura de Nova York recebeu os campeões da NBAANGELA WEISS / AFP

Confira a tabela da Copa do Mundo no Flashscore

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.

 

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