Exclusivo: Roque Júnior pede Neymar "bem da cabeça" para fazer a diferença na Copa

Roque Jr. concedeu entrevista exclusiva ao Flashscore
Roque Jr. concedeu entrevista exclusiva ao FlashscoreULISES RUIZ / AFP / AFP / Profimedia

O zagueiro Roque Júnior entrou para a história do futebol brasileiro ao se tornar campeão da Copa do Mundo de 2002 com a Seleção.

Nesta entrevista exclusiva ao Flashscore, o ex-jogador fala das chances do Brasil no Mundial de 2026, destacando a possível participação de Neymar e a contribuição do técnico Carlo Ancelotti.

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Com quatro temporadas no Milan, Roque Júnior sabe bem como funciona o estilo de jogo do treinador italiano, chamado para resolver as oscilações constantes da Seleção.

Roque, o público brasileiro vê o Brasil como um dos favoritos. Você acha que os fracassos recentes em Copas do Mundo abalaram a confiança do torcedor brasileiro?

É difícil falar por muita gente. Na minha opinião, acho que o Brasil não entra como um dos favoritos. A história é grande com a camisa, por ter cinco títulos. Acho que o Brasil sempre entra como uma das possibilidades de ganhar o título pela história, tanto nesta Copa como nas outras. Mas eu acho que, se olhar hoje, o Brasil não entra como um dos favoritos. Mas aqui é difícil falar pela população, são 220 milhões de pessoas.

O que a presença do Carlo Ancelotti, que você conhece tão bem, traz pra Seleção? Qual estratégia podemos esperar da equipe?

Ele lida bem com as pessoas, não à toa ganhou em vários países diferentes. Isso é um ponto importante pra saber lidar com uma cultura diferente da nossa. Não sei muito o que esperar, porque a gente também viu pouco. Pela mentalidade que ele tem, por ser italiano, ele se preocupa muito com a parte defensiva. Ele trabalhou com outras culturas e se adapta bem às características de cada jogador. Ele tem essa capacidade de liderar, de ter o contato com os jogadores e tem essa preocupação defensiva por ser natural como italiano.

Roque Jr. conhece bem o estilo de jogo do futebol italiano
Roque Jr. conhece bem o estilo de jogo do futebol italianoULISES RUIZ / AFP / AFP / Profimedia

Há quem diga que o Brasil ultimamente tem perdido um pouco do seu DNA de jogo bonito. Uma das teses é pelo jogador brasileiro sair do país ainda muito jovem. Você concorda com essa tese?

Eu acho que a gente perdeu um pouco do que era o nosso jogo. Acho que era um jogo muito mais individual e isso fazia com que o jogador, tanto ofensivamente quanto defensivamente, se tornasse forte individualmente nos aspectos técnicos ou mesmo tático individual.

Nós perdemos isso um pouco, fomos invertendo essa ideia, trazendo muitas vezes o jogo que se jogava na Europa para dentro do Brasil.

Isso se perdeu na base. Você vê que hoje, se você chegar na Seleção, nós sempre tivemos grandes atacantes, grandes meias que desequilibravam. Na lista do Ancelotti, só temos o Neymar com esse perfil de qualidade e criatividade. E sempre tivemos jogadores assim do meio campo pra frente.

Temos um ou outro surgindo como atacante, mas muito de lado. Nós sempre tivemos também grandes centroavantes, finalizadores. A base mudou isso até dentro do nosso próprio campeonato, é uma das causas que faz a gente hoje ter menos jogador com essa criatividade.

Explique, por favor, para um gringo... Vini Júnior tem no Brasil a mesma reputação que Ronaldo, Ronaldinho ou até o Neymar no seu auge?

É difícil fazer essas comparações, mas eu acho que o Vinicius tem um tipo de característica de um jogador que gosta do drible, que lembra o jogador brasileiro. É uma característica diferente do Ronaldo,  por exemplo. Ele não está no mesmo nível de Ronaldo e Neymar. Ele é uma peça fundamental no Real Madrid, mas ainda precisa evoluir para conseguir fazer a diferença na Seleção Brasileira.

Roque Jr. foi peça-importante do título da Seleção em 2002
Roque Jr. foi peça-importante do título da Seleção em 2002JACQUES DEMARTHON / AFP / AFP / Profimedia

Você tocou em um ponto que eu gostaria que fosse aprofundado. A gente pode esperar do Brasil um futebol ofensivo ou uma abordagem mais pragmática nesta Copa do Mundo?

Difícil falar. Nós tivemos vários treinadores, o Ancelotti chegou agora no final...Nós não temos jogadores em que você fala: "é uma característica mais ofensiva". Nós não temos hoje tantos jogadores que desequilibrem ofensivamente. Então você olha pra uma seleção que não é ofensiva, não tem grandes jogadores que desequilibram.

Temos um treinador que, nos trabalhos que fez, busca fortalecer muito o que cada jogador tem de melhor, ele busca juntar esses jogadores e fazer ali um modelo de jogo, potencializando a característica desses jogadores.

Ele tem a cultura italiana, mais defensiva, não gosta de levar gol. Se você fizer um a zero, você ganha. Mas o que esperar é difícil. Temos que esperar pra ver o que vai vir.

Para fechar, houve muito debate se o Neymar devia ir ou não ir à Copa do Mundo. O que ele pode trazer para essa Seleção Brasileira, como ele pode ajudar?

Acho que ele tem qualidade inegável, apesar de estar há muito tempo sem jogar numa sequência. Quando você tem uma sequência de jogos, isso vai fazendo com que você tenha mais confiança e vá melhorando. 

Nesses últimos anos, ele não conseguiu ser constante. Isso é um lado preocupante. Na Copa, serão quase dois meses entre treinamentos e jogos. Será importante ele estar bem fisicamente e bem da cabeça. Sabendo que é um período curto, precisando ter foco pra conseguir dar o seu melhor.

Ele precisa entender que é parte de um grupo e que pode ajudar pela capacidade, se estiver bem fisicamente. Acho que isso é importante, para que não tenha uma influência negativa. A gente tem uma passagem na Copa passada de um lance dele com o Richarlison que mostra essa importância.

Roque Jr. em ação na Copa de 2002
Roque Jr. em ação na Copa de 2002Niklas Larsson / Zuma Press / Profimedia

O Richarlison pega uma bola e chuta no gol. E Neymar reclama com ele. Quando acaba o primeiro tempo, a primeira coisa que o Richarlison faz é ir na direção do Neymar e pedir desculpa. E aí, quando volta pro segundo tempo, toda bola que o Richarlison pegava, ele olhava pro Neymar. Então, isso pra mim é um ponto de cuidado. O Neymar e os outros jogadores precisam entender isso.

Tem hora que eu vou chutar no gol e alguém pode reclamar. Mas eu devolvo também essa reclamação e isso de certa forma pode influenciar o outro jogador a não fazer determinada jogada depois. É importante o Neymar entender o papel dele, é importante ter jogadores que entendam o papel, mas que também tenham personalidade nesse momento. Porque isso é fundamental para que uma seleção ganhe. Em momentos como esse, você precisa ter jogadores com personalidade e também um Neymar que seja uma liderança positiva e não negativa, porque isso influencia diretamente.

Se for positiva, o que Richarlison teria feito é tentado outras jogadas e não só olhar pro Neymar. Você influencia negativamente e acaba fazendo com que, no momento da decisão, a melhor decisão não seja tomada. Eu acho que isso é um ponto que tem que ter atenção, tanto do Neymar, como dos outros jogadores e do Ancelotti.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.

 

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