A UEFA confirmou o resultado da reunião pouco depois que o repórter do The Times, Martyn Ziegler, que também revelou os planos iniciais da FIFA para a FIFA Forward Enterprise, noticiou o fato na tarde de quinta-feira.
"A UEFA e suas 55 associações membros estão unidas. Rejeitamos de forma unânime e inequívoca a proposta da FIFA de transferir interesses de propriedade na Copa do Mundo e em outras competições da FIFA para investidores privados," afirmou o comunicado da UEFA.
"A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. É um dos maiores legados esportivos do futebol. Foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores de todos os continentes. Nenhuma parte dela deve jamais ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda".
"É irresponsável e indefensável que uma proposta de tamanha importância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada à beira da aprovação sem qualquer consulta significativa com aqueles que têm a responsabilidade de zelar pelo esporte. Isso não é apenas uma falha profunda de liderança, mas uma abdicação do dever da FIFA como guardiã do futebol mundial," prosseguiu a UEFA.
Os 55 membros da UEFA se reuniram em caráter emergencial, de forma online, nesta quinta-feira (30) para discutir os planos da FIFA de criar a chamada FIFA Forward Enterprise, uma empresa de US$ 20 bilhões que administraria a Copa do Mundo e outros eventos, oferecendo até 20% de participação para investidores externos.
A FIFA Forward Enterprise, criada em parceria com o banco americano J.P. Morgan Chase e que receberia bilhões em investimentos de Josh Kushner, genro do presidente dos EUA, Donald Trump, começaria a operar em 1º de janeiro após aprovação da maioria dos 211 membros da FIFA e do Conselho da FIFA.
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, enviou uma carta aos 211 membros da entidade propondo a FIFA Forward Enterprise. Na carta, Infantino ofereceu um pacote de financiamento totalizando US$ 10 bilhões (R$ 50,9 bilhões), disponível caso as associações aderissem, com cada uma recebendo US$ 40 milhões (R$ 203,6 milhões). Se recusarem apoiar a proposta, o valor recebido será de US$ 2,7 milhões (R$ 13,7 milhões), quase 75% a menos.
"Copa do Mundo pertence ao futebol"
A UEFA continuou seu comunicado criticando a busca da FIFA por dinheiro, classificando investidores externos como uma ameaça à existência do esporte.
"No momento em que investidores externos adquirem participação nas competições da FIFA, o futebol muda para sempre. O retorno comercial se torna uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores passam a ser uma pressão diária. A partir desse momento, toda decisão sobre o calendário internacional, sobre formatos de competição e sobre o futuro do futebol deixa de ser guiada pelo que é melhor para o esporte e passa a ser guiada pelo que é melhor para os acionistas".
"Esse modelo não tem lugar no futebol mundial. O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas de quem tem como prioridade maximizar o retorno financeiro. Os interesses das federações nacionais, ligas, clubes, jogadores e torcedores não podem ficar subordinados ao lucro dos investidores. O futebol não pode hipotecar seu futuro em troca de ganhos financeiros", declarou.

Vários membros já haviam se manifestado antes da reunião de quinta-feira, como Bernd Neuendorf, presidente da Federação Alemã e membro do Conselho da FIFA, dizendo que "não podemos permitir que o futebol vire brinquedo de investidores", e Frank Paauw, presidente da Federação Holandesa, afirmando que "essa é uma linha que foi alcançada e ultrapassada".
A UEFA reforçou a posição da Europa em relação aos planos de investimento da FIFA, afirmando que nenhum time europeu irá competir enquanto os planos atuais estiverem em pauta.
"A posição da Europa é clara. Jamais daremos legitimidade a esse modelo. Ninguém tem autoridade moral para vender aquilo que apenas guarda em confiança para a próxima geração.
"Como resultado da discussão de hoje, nenhuma seleção nacional da UEFA participará de qualquer competição da FIFA enquanto essas propostas estiverem em vigor, a menos que a proposta seja totalmente abandonada e haja garantias vinculantes de que a FIFA nunca mais abrirá sua governança ou competições para propriedade privada", garantiu.
"Ninguém deve ter dúvidas: a UEFA e suas federações nacionais vão se opor a esses planos com total determinação."
Os membros da FIFA têm até 19 de setembro para aprovar os planos da entidade. Infantino, que concorrerá a um segundo mandato em 2027, assumiria um cargo dentro da empresa semelhante ao do comissário da NFL, Roger Goodell, que recebe US$ 64 milhões (R$ 325,8 milhões) por ano, 10 vezes mais do que Infantino.
A reunião foi considerada um dos momentos mais cruciais da história da UEFA. A entidade máxima do futebol europeu encerrou seu comunicado com uma promessa à torcida.
"Existem momentos em que as instituições são julgadas não pelo que estão dispostas a aceitar, mas pelo que se recusam a negociar. Este é um desses momentos. Algumas coisas são simplesmente importantes demais para serem vendidas. A Copa do Mundo da FIFA pertence ao futebol. Sempre será assim. E, enquanto a Europa tiver voz, ela nunca estará à venda."
