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UEFA decide boicotar Copa do Mundo em protesto contra decisão comercial da FIFA

Presidente da UEFA Aleksander Ceferin
Presidente da UEFA Aleksander CeferinGrzegorz Wajda/SOPA Images / Shutterstock Editorial / Profimedia

Os 55 membros da UEFA votaram por unanimidade a favor de boicotar a Copa do Mundo da FIFA em protesto contra os planos da entidade de criar uma subsidiária de US$ 20 bilhões (R$ 101,8 bilhões) para administrar o torneio.

A UEFA confirmou o resultado da reunião pouco depois que o repórter do The Times, Martyn Ziegler, que também revelou os planos iniciais da FIFA para a FIFA Forward Enterprise, noticiou o fato na tarde de quinta-feira.

"A UEFA e suas 55 associações membros estão unidas. Rejeitamos de forma unânime e inequívoca a proposta da FIFA de transferir interesses de propriedade na Copa do Mundo e em outras competições da FIFA para investidores privados," afirmou o comunicado da UEFA.

"A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. É um dos maiores legados esportivos do futebol. Foi construída ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores de todos os continentes. Nenhuma parte dela deve jamais ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda".

"É irresponsável e indefensável que uma proposta de tamanha importância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada à beira da aprovação sem qualquer consulta significativa com aqueles que têm a responsabilidade de zelar pelo esporte. Isso não é apenas uma falha profunda de liderança, mas uma abdicação do dever da FIFA como guardiã do futebol mundial," prosseguiu a UEFA.

Os 55 membros da UEFA se reuniram em caráter emergencial, de forma online, nesta quinta-feira (30) para discutir os planos da FIFA de criar a chamada FIFA Forward Enterprise, uma empresa de US$ 20 bilhões que administraria a Copa do Mundo e outros eventos, oferecendo até 20% de participação para investidores externos.

A FIFA Forward Enterprise, criada em parceria com o banco americano J.P. Morgan Chase e que receberia bilhões em investimentos de Josh Kushner, genro do presidente dos EUA, Donald Trump, começaria a operar em 1º de janeiro após aprovação da maioria dos 211 membros da FIFA e do Conselho da FIFA.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, enviou uma carta aos 211 membros da entidade propondo a FIFA Forward Enterprise. Na carta, Infantino ofereceu um pacote de financiamento totalizando US$ 10 bilhões (R$ 50,9 bilhões), disponível caso as associações aderissem, com cada uma recebendo US$ 40 milhões (R$ 203,6 milhões). Se recusarem apoiar a proposta, o valor recebido será de US$ 2,7 milhões (R$ 13,7 milhões), quase 75% a menos.

"Copa do Mundo pertence ao futebol"

A UEFA continuou seu comunicado criticando a busca da FIFA por dinheiro, classificando investidores externos como uma ameaça à existência do esporte.

"No momento em que investidores externos adquirem participação nas competições da FIFA, o futebol muda para sempre. O retorno comercial se torna uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores passam a ser uma pressão diária. A partir desse momento, toda decisão sobre o calendário internacional, sobre formatos de competição e sobre o futuro do futebol deixa de ser guiada pelo que é melhor para o esporte e passa a ser guiada pelo que é melhor para os acionistas". 

"Esse modelo não tem lugar no futebol mundial. O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas de quem tem como prioridade maximizar o retorno financeiro. Os interesses das federações nacionais, ligas, clubes, jogadores e torcedores não podem ficar subordinados ao lucro dos investidores. O futebol não pode hipotecar seu futuro em troca de ganhos financeiros", declarou.

Presidente da FIFA Gianni Infantino
Presidente da FIFA Gianni InfantinoREUTERS/Brian Snyder/File Photo

Vários membros já haviam se manifestado antes da reunião de quinta-feira, como Bernd Neuendorf, presidente da Federação Alemã e membro do Conselho da FIFA, dizendo que "não podemos permitir que o futebol vire brinquedo de investidores", e Frank Paauw, presidente da Federação Holandesa, afirmando que "essa é uma linha que foi alcançada e ultrapassada".

A UEFA reforçou a posição da Europa em relação aos planos de investimento da FIFA, afirmando que nenhum time europeu irá competir enquanto os planos atuais estiverem em pauta.

"A posição da Europa é clara. Jamais daremos legitimidade a esse modelo. Ninguém tem autoridade moral para vender aquilo que apenas guarda em confiança para a próxima geração.

"Como resultado da discussão de hoje, nenhuma seleção nacional da UEFA participará de qualquer competição da FIFA enquanto essas propostas estiverem em vigor, a menos que a proposta seja totalmente abandonada e haja garantias vinculantes de que a FIFA nunca mais abrirá sua governança ou competições para propriedade privada", garantiu.

"Ninguém deve ter dúvidas: a UEFA e suas federações nacionais vão se opor a esses planos com total determinação."

Os membros da FIFA têm até 19 de setembro para aprovar os planos da entidade. Infantino, que concorrerá a um segundo mandato em 2027, assumiria um cargo dentro da empresa semelhante ao do comissário da NFL, Roger Goodell, que recebe US$ 64 milhões (R$ 325,8 milhões) por ano, 10 vezes mais do que Infantino.

A reunião foi considerada um dos momentos mais cruciais da história da UEFA. A entidade máxima do futebol europeu encerrou seu comunicado com uma promessa à torcida.

"Existem momentos em que as instituições são julgadas não pelo que estão dispostas a aceitar, mas pelo que se recusam a negociar. Este é um desses momentos. Algumas coisas são simplesmente importantes demais para serem vendidas. A Copa do Mundo da FIFA pertence ao futebol. Sempre será assim. E, enquanto a Europa tiver voz, ela nunca estará à venda."

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