O ano era 2006. Após eliminar gigantes como Real Madrid e Juventus, o Arsenal de Arsène Wenger desembarcou em Paris para enfrentar o Barcelona na decisão da Liga dos Campeões, disputada no Stade de France.
Acompanhe PSG x Arsenal com narração ao vivo no Flashscore
Thierry Henry era o capitão daquela equipe, que contava com o brasileiro Gilberto Silva como peça fundamental no meio-campo. Na final, Sol Campbell abriu o placar para os ingleses, mas o sonho terminou de forma traumática: Eto’o e Belletti marcaram no segundo tempo e decretaram a virada catalã.
Aquele Arsenal, porém, pertencia a um mundo completamente diferente. Não havia smartphones registrando cada momento da arquibancada, influenciadores dominando os camarotes e nem a instantaneidade das redes sociais.
Um futebol de outra era
Em 2006, ver os gols da rodada não era simples. Os torcedores precisavam esperar os programas esportivos da TV ou recorrer aos primeiros vídeos, ainda amadores, publicados no recém-criado YouTube.
A Itália conquistava o tetracampeonato mundial ao vencer a França em uma final eternizada pela cabeçada de Zidane em Materazzi. Aquele foi o último jogo de mata-mata disputado pelos italianos em Copas do Mundo, já que a Azzurra caiu na fase de grupos em 2010 e 2014 e sequer conseguiu se classificar para os Mundiais seguintes.

O jovem Lionel Messi já encantava o mundo no Barcelona, mas ficou fora do banco de reservas na decisão da Champions, pois se recuperava de uma lesão muscular na coxa. Já Cristiano Ronaldo começava a se consolidar como uma das grandes promessas do futebol mundial no Manchester United.
No Brasil, o Internacional não apenas conquistava a América pela primeira vez, como também alcançava a glória planetária ao derrotar o próprio Barça, com gol de Adriano Gabiru, enquanto o adolescente Alexandre Pato chamava atenção pelas acrobacias com o ombro na semifinal. Vice da Libertadores naquele ano, o São Paulo iniciaria a histórica sequência de três títulos brasileiros consecutivos.
Revolução tecnológica
Os celulares de 2006 estavam longe de funcionar como pequenos computadores de bolso. A grande febre do início dos anos 2000 havia sido o Nokia 1100, uma espécie de “tijolinho” conhecido pela pequena lanterna embutida, mas naquela altura ele já começava a ceder espaço a aparelhos mais modernos.
Modelos da Motorola, Sony Ericsson, BlackBerry e da própria Nokia davam os primeiros passos rumo ao que futuramente se tornaria o smartphone. Câmeras consideradas avançadas para a época, toques polifônicos, celulares deslizantes e reprodutores de MP3 integrados transformavam aqueles aparelhos em verdadeiros símbolos de modernidade.
Foi também nessa época que o Orkut se consolidou como a principal rede social entre os brasileiros. Comunidades, depoimentos e scraps dominaram a internet muito antes dos reels e TikToks.
CDs, DVDs e locadoras
Longe da era do streaming, assistir a um filme exigia planejamento. Naquele momento, as fitas VHS já tinham dado lugar aos DVDs, que impressionavam pela praticidade de não precisar rebobinar, mas ainda era necessário ir a uma locadora e torcer para que o filme desejado já não tivesse sido alugado.
A música também passava por um período de transformação. Os CDs haviam substituído os discos de vinil, vistos na época como uma tecnologia ultrapassada. LPs que hoje valem fortunas para colecionadores eram vendidos por preços baixos, ou até descartados, enquanto o público se encantava com aquele novo formato, sem chiados e sem a necessidade de virar o disco durante a reprodução.

Topo das paradas
A cultura pop de 2006 refletia a estética dos anos 2000. Na televisão brasileira, novelas como “Cobras & Lagartos”, “Páginas da Vida” e “Sinhá Moça” figuravam entre os maiores sucessos do país.
Entre os jovens, “Malhação” seguia influenciando comportamento, moda e linguagem. A temporada daquele ano, embalada pela marcante abertura “Te Levar Daqui”, do Charlie Brown Jr., apostava em skate, romances adolescentes e conflitos escolares que marcaram uma geração.
Na música internacional, nomes como Fergie, Shakira, Akon e Snoop Dogg dominavam as paradas da Billboard. Já no Brasil, o tradicional Prêmio Multishow de Música Brasileira elegeu “Memórias”, da Pitty, como o clipe do ano. A categoria de melhor música ficou com “Ai, Ai, Ai...”, de Vanessa da Mata.
Nos cinemas, os grandes sucessos internacionais eram “Piratas do Caribe: O Baú da Morte”, “O Código Da Vinci” e “Uma Noite no Museu”. Já entre as produções brasileiras, “Se Eu Fosse Você”, estrelado por Tony Ramos e Glória Pires, levou milhões de espectadores às salas.
Um mundo politicamente diferente
O cenário internacional também passava por transformações. Em dezembro de 2006, o ex-ditador iraquiano Saddam Hussein foi condenado à morte por enforcamento, encerrando simbolicamente um dos capítulos mais marcantes da Guerra do Iraque.
No Brasil, outro acontecimento mobilizou o país: Marcos Pontes se tornou o primeiro brasileiro a viajar ao espaço ao integrar a “Missão Centenário”, rumo à Estação Espacial Internacional.
O ano também ficou marcado por mortes que tiveram grande impacto cultural, como a do humorista Bussunda, símbolo do “Casseta & Planeta”, do técnico Telê Santana e do ex-ditador chileno Augusto Pinochet.
Vinte anos depois

Duas décadas se passaram desde aquela noite inglória em Paris. O Highbury, histórico estádio do Arsenal, deixou de existir, Arsène Wenger se aposentou, Henry trocou os gramados pelos estúdios de televisão e o futebol entrou definitivamente na era digital.
Agora, as lembranças da última final de Liga dos Campeões do Arsenal serão atualizadas para transmissões em 4K e vídeos instantâneos nas redes sociais. Resta saber se o desfecho será finalmente feliz para os Gunners.
