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Golpe na Bulgária, sem vestiário na Indonésia: Carlos França e sua jornada até o San Siro

Carlos França em ação pelo Ararat-Armenia
Carlos França em ação pelo Ararat-ArmeniaFlashscore/Gurgen Hakobyan/NurPhoto via AFP

Quantos brasileiros já viveram em três continentes? Carlos França, atacante do Ararat-Armenia, é um dos poucos que tiveram esse privilégio. Depois de rodar o Brasil em diversos clubes, o jogador de 31 anos passou por Bulgária, Índia, Indonésia e, agora, está na Armênia. Por isso, Carlos é o mais novo entrevistado do "Brasileiros no Mundo", projeto do Flashscore que conta histórias de atletas do país espalhados pelo planeta.

Em sua nova casa desde o início da temporada 2026/27, Carlos França escolheu se transferir para o Ararat-Armenia em busca de realizar um sonho: jogar competições europeias.

Nos seus primeiro jogos na Armênia, já disputou as fases preliminares da Champions League e marcou dois gols. Em seguida, viu seu time ir para a Liga Europa e agora convive com o sonho de enfrentar o Milan, em San Siro.

Confira as outras entrevistas do "Brasileiros no Mundo"

"Particularmente pra mim, o que me chamou a atenção de ter vindo pro Ararat foram as competições europeias — ter a oportunidade de jogar a fase de pré da Champions, agora a gente está na fase de liga da Liga Europa. São oportunidades incríveis", iniciou Carlos França sobre a escolha do novo país.

"Eu acompanhei o Milan com o Ronaldinho, e quando a gente estava reunido com a equipe pra ver os clubes que iríamos enfrentar e apareceu o Milan, a gente comemorou bastante, porque é uma coisa que pode acontecer só uma vez na sua vida. As minhas expectativas são muito altas. Será a realização de um sonho — estar no San Siro, poder enfrentar o Milan", completou com empolgação sobre a partida marcada para o dia 28 de janeiro.

O Ararat-Armenia enfrentará o Milan em janeiro.
O Ararat-Armenia enfrentará o Milan em janeiro.Divulgação/UEFA

Vida na Armênia

Evidentemente as experiências de um jogador não se restringem ao campo e bola. Carlos França tem poucos meses de Armênia, mas já tem criado uma afeição ao país. O atleta conta que a variedade da culinária tem sido um dos pontos altos até aqui.

"Estou com a minha família aqui, e a gente tem gostado muito. As pessoas são bem receptivas — não falam tão bem o inglês, mas tentam te entender e te ajudar. A culinária é muito boa, fiquei muito surpreso com a qualidade dos restaurantes. São muitos, variados, e a gente tem aproveitado bastante para conhecer essa cultura, que é bem diferente do Brasil", explicou.

Os números de Carlos França nas últimas temporadas
Os números de Carlos França nas últimas temporadasFlashscore

Começo e golpe na Bulgária

Essa não é a primeira experiência de Carlos França no futebol europeu. Sua primeira passagem no Velho Continente começou em 2022, na Bulgária. Lá atuou pelo Lokomotiv Sofia em duas temporadas, com 67 jogos e 12 participações em gols.

Porém, o brasileiro conta que os maiores desafios foram fora de campo, já que estava em sua primeira experiência fora do Brasil.

"Foi muito bom pra mim pessoalmente, pro meu caráter, pra minha pessoa — evoluí muito na Bulgária. Cheguei lá e não falava inglês, tampouco o búlgaro. Então foram desafios diários que tive que superar — de clima, de cultura, de forma de trabalho, porque algumas coisas no futebol europeu são diferentes do futebol brasileiro. A minha experiência na Bulgária foi uma preparação", analisou o jogador.

Carlos França em campo pelo Ararat-Armenia na Liga Europa
Carlos França em campo pelo Ararat-Armenia na Liga EuropaArarat-Armenia

A barreira da língua, além de criar um problema de entendimento nas relações, deixa a pessoa vulnerável. Carlos França relembrou um pequeno golpe que sofreu no começo de sua passagem pela Bulgária, episódio que o motivou a aprender o búlgaro para deixar claro que vivia lá.

"Tinha um café perto da minha casa onde o valor era bem baixo. Me lembro que cheguei a pedir o café em mímica, porque não sabia me comunicar. Passei um valor e a mulher me retornou o troco certo. No outro dia fui de novo nesse café, passei um valor — acho que 20 euros — e ela me devolveu um euro. Deu pra ver que ela estava me passando a perna. Daí percebi que ia ter que aprender a língua búlgara, pelo menos o “bom dia”, o “boa tarde”, algumas coisas pra eles pensarem que eu falava a língua", relembrou.

Mudança para a Índia

Já adaptado a viver fora do país, o atacante brasileiro resolveu aceitar um desafio maior e se transferiu para o Mohammedan, da Índia, em 2024. Carlos conta que inicialmente foi movido pela proposta financeira, mas, após chegar ao país, ele e sua família se apaixonaram.

"Quando a gente chegou na Índia — eu costumo falar com os meus amigos que você precisa ir à Índia pra ter a sua experiência — foi um país que me surpreendeu muito positivamente, porque também tem partes muito bonitas. A gente foi a grandes restaurantes, a vários lugares muito interessantes. O povo indiano é muito receptivo, muito caloroso", iniciou.

"O povo da Índia eu pensava que era diferente, mas é muito receptivo, tentam te ajudar o tempo inteiro. No clube sempre tinha alguém disponível 24h pra qualquer problema. Lembro que minha filha adoeceu — acho que eram 2h, 3h da manhã — e foram três pessoas do clube, pegaram ela, levaram ao hospital, ficaram aguardando e depois regressaram à nossa casa. Minha esposa e minha filha sentem muita saudade de lá, elas sempre falam sobre a Índia", revelou Carlos.

Sem vestiário na Indonésia

Passando por todas lugares e culturas diferentes, evidentemente sempre há algo novo no dia a dia dos jogadores brasileiros. Carlos França, é claro, tem histórias para contar sobre costumes incomuns. Na Indonésia, por exemplo, onde atuou pelo Persijap Jepara, não há vestiários nos campos de treinamento.

"Ajudou muito ter jogado na Índia antes de ir pra Indonésia. Eles são parecidos em questão de cultura no futebol em algumas coisas. Por exemplo, na Indonésia geralmente não tem vestiário — você recebe o seu uniforme antes de ir pro treino, então você se troca em casa e vai já trocado pro local onde vai ser o treino. Encontrei um brasileiro, um amigo meu que estava nesse mesmo time, e ele sempre falava: “Mano, isso não tem como aceitar.” Como eu tinha vindo da Índia, já falava: “Irmão, é cultura do clube", explicou.

Carlos França em jogo pela Armenian Premier League
Carlos França em jogo pela Armenian Premier LeagueArarat-Armenia

Porém, mesmo com as diferenças culturais, Carlos conta que o futebol na Indonésia tem crescido muito e existem torcidas apaixonadas. Ele até compara com o Brasil.

"A torcida na Indonésia é mais fervorosa do que na Índia. Eles vão aos estádios, têm duas ou três torcidas organizadas — é um ambiente bem parecido com o do Brasil, com muitos torcedores, com 10, 20, 30 mil pessoas", contou.

Objetivos futuros

Carlos França completará ao fim dessa temporada cinco anos fora do Brasil. O atacante de 31 anos não tem planos de retornar ao seu país no momento. Ele conta que está feliz com a oportunidade de disputar competições europeias, mas que também não coloca limites em sua carreira.

"Eu não coloco limites no que planejo pra minha carreira. Eu estava na Indonésia, fiz uma boa temporada e de repente regressei à Europa com competições europeias, pude jogar Champions League, jogar a Europa League. Isso me prova ainda mais que você não pode colocar limites", disse o jogador do Ararat-Armenia.

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